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Redação Científica por Gilson Volpato
 
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Universidade Retrógrada

Aqui trato do texto "Cresce procura por novos modelos de ensino superior", de Isabela Palhares, no jornal Estadão, de 09/08/2015, seção Educação. O texto mostra que alunos e interessados no ensino superior estão começando a rejeitar o modelo atual que é essencialmente "conteudesco" e num sistema passivo de transmissão de informações. É patente, claro e visível que esse modelo criticado já não contempla o público ao qual se destina e nem a requisitos de teorias pedagógicas minimamente ousadas e atualizadas.

 

Além dessa procura dos alunos por universidades mais condizentes com questões educacionais e recursos atuais de ensino, há também essa busca por parte dos próprios professores universitários e outros gestores. O problema é que as soluções que saem do tradicional ainda encontram muita resistência. A mentalidade, na maioria de nossas universidades, ainda é desatualizada e não empreendedora. Pequenos atos de inovação já são vistos como grandes avanços, o que só atesta o estágio rudimentar de inovação universitária a que estamos ainda submetidos.

 

Contudo de alguns avanços interessantes dentro da própria universidade (e falo principalmente da universidade pública), há ainda muito a se fazer. A busca de novos modelos (e duvido que haverá apenas um modelo) é necessária e parte intrínseca do ser universitário. Vasculhar o mundo exterior é salutar, mas saber incorporar as inovações do exterior à nossa realidade é também importante, principalmente se for sem medo de reverter parte de nossa realidade para essa adaptação. A quebra da dicotomia ensino-pesquisa deve ser prioritária na cabeça dos educadores e cientistas que formam nosso quadro universitário. Teremos que contrariar costumes ultrapassados, como excessivas aulas expositivas (sem debate com os alunos), excesso de aulas semanais, bajulamento excessivo aos alunos, medo de avaliar, amor ao conteúdo (que leva a informar e não formar o aluno), restrição a ensino multifacetado (ligação com conteúdos e sistemas de ensino de várias universidades de qualquer lugar do mundo), incompreensão sobre o que é fundamental para se formar um universitário preparado para atuar no mundo, sem desconsiderar a formação humana necessária em qualquer profissão etc. Tudo o que cito são, para mim, decorrentes lógicos do "ser universitário".

 

Amarras superiores (avaliadores que ficam cobrando número de formandos, com a falácia do custo per capta) forçam sistemas a mostrarem números ao invés de qualidade. É inadmissível um sistema de ensino ter metas de aprovação. Se há anseio, é a aprovação dos alunos na totalidade; a aproximação desse anseio é uma meta desejada, mas nem sempre possível. O próprio exame da OAB, sem desconsiderar as críticas que se possam fazer, mostra o distanciamento das universidades e outras instituições de ensino superior com a prática exigida pela categoria. O mesmo deve ocorrer, em maior ou menor grau, em outras profissões. Estamos atrasados, mas ainda é tempo de buscarmos modelos de universidade flexíveis e que visem, acima de tudo, a formação de profissionais de alta competência e valor humano. E essa luta não pode ser dissociada da busca por um ensino pré-universitário de alta qualidade. Esse é o quadro. Do contrário, para que serveriam as insistentes solicitações de mais verba para a educação?

10/08/2015
O Brasil em Harvard: vantagens e precauções

No jornal O Estado de São Paulo, de 27/4/15, a entrevista com Jorge Dominguez é muito instrutiva. Ele é vice-reitor de relações internacionais de Harvard e professor de política e história latino-americana. Ele fala da importância e do avanço dos brasileiros no quadro de estudantes de Harvard. Aumentamos bastante, mas ainda temos que aumentar mais o número de brasileiros nessa instituição.

 

A opção por enviar alunos para boas universidades do exterior é uma política educacioal que visa usar a competência desses grandes centros para formar mentes que possam retornar ao Brasil e alavancar nossa ciência e educação. Sem dúvida uma iniciativa interessante e até necessária. Ela assume que temos problemas com a educação e a ciência em nosso país e, ao mesmo tempo, reconhece que uma das saídas é aprender com quem sabe. É óbvio que isso será conquistado apenas por alguns, mas que terão chance de transformar a mentalidade brasileira de universidade. Uma aposta válida em minha opinião. Veja, por exemplo, que Harvard é uma universidade privada e, no Brasil, há ainda muito preconceito em injetar dinheiro privado na universidade pública. Essas experiências nas melhores universidades do mundo certamente contribuirão para mudança nesse quadro.

 

Mas a questão não é tão simples, de forma que possa ser resolvida com a teceirização do ensino (o envio de nossos estudantes para aprenderem fora do país). É um caminho correto. Antigamente os pós-doutoramentos eram feitos todos no exterior (geralmente em 1 a 2 anos). Mas, depois de certo tempo, o Brasil começou a achar que já tinhamos laboratórios equipados o suficiente para que os pós-doutoramentos fossem feitos aqui mesmo. Isso reverberava nossa mentalidade, reduzindo as chances de inovações. Mas foi um período. Depois o Brasil introduziu as bolsas sanduíches, que implicava numa visita ao exterior, mas geralmente mais curta. Todas essas iniciativas se coadunavam com economias necessárias para o setor. Mais tarde vem o Ciência Sem Fronteiras e coloca o aluno de graduação no exterior. Todos esses movimentos visaram buscar conhecimentos e posturas nos melhores lugares do mundo (mas em algumas áreas o exterior significa apenas Portugal ou Espanha, devido à dificuldade dos graduandos ou pós-graduandos serem aprovados em exame de inglês).

 

Como disse, a questão não é tão simples. O que fará um aluno perante a possibilidade de ficar contratado em Harvard ou ser contratado no Brasil? Fora questões pessoais, profissionalmente é altamente motivadora a possibilidade de ser professor em Harvard ou outra universidade de grande prestígio. Além do prestígio, o trabalho nessas instituições são mais motivadores. A concorrência pode ser grande, mas um cientista educador não teme isso; ao contrário, vê nessa concorrência a motivação para continuar fazendo bem.

 

São essas possibilidades que poderão fazer com que o ganho do Brasil não seja máximo com essas idas ao exterior. Essas melhores universidades do mundo terão à sua escolha os melhores profissionais do mundo, fazendo com que retorne ao país de origem aqueles que elas não conseguiram seduzir ou os que a elas não interessam. Ou seja, ficam com a nata do que há de melhor no mundo. É uma troca; aprendemos com eles e eles ficam com o melhor disponível. 

 

É por isso que temos que, paralelamente à exportação de cérebros, criar rapidamente universidades brasileiras com mentalidades de primeiro mundo, de forma a atrair nossos ex-alunos. E se tivermos um mínimo de bom ambiente de educação e ciência, estaremos na frente, pois nem todos gostariam de ficar longe de família e do país natal. Mas essa transformação universitária é urgente e necessária. Não adianta comprar um modelo Ferrari esportivo se você ficará seu tempo numa fazenda, com estradas de terra. De nada adianta nossos alunos aprenderem uma mentalidade melhor se, ao retornarem, encontram universidades arcaicas e dominadas não pela competência profisisonal, mas pelos favorecimentos políticos. Isso seria extremamente desmotivador a esses alunos e, com isso, estaríamos impulsionando nossos melhores cérebros para o exterior. Não adianta apenas dar bons laboratórios para esses alunos. É imperativo que se dê a eles ambiente de ciência e educação. Ambiente que permita que ele implante ideias arrojadas no próprio sistema de ciência brasileira. Um ambiente que valorize a capacidade profissional, ao contrário do existente que apenas iguala os inigualáveis, no conceito populista de que não pode haver diferenciação alguma.

27/04/2015
ENSINO: A mudança começa na instituição

Nesta reportagem vemos iniciativas de universidades brasileiras (ao menos algum grupo restrito dentro delas) em aprender com quem sabe, o que é nobre e inteligente (no caso, HARVARD E MIT). A concepção sobre o profissional que queremos formar e a ousadia em tentar o novo são requisitos de uma boa gestão educacional. Sem isso, nunca sairemos do tradicional, incluindo os erros do tradicional. Hoje a obtenção de informação não é mais o maior problema. O desafio é aprender o que fazer com ela. E isso aprendemos fazendo, questionando, sendo orientados, refazendo. A prática exercita, fornece e fixa o aprendizado. Há muitos anos falo aos meus alunos de graduação que a projeção física de uma sala de aula pressupõe um sistema de ensino (nada é ao acaso, mas pode ser por alienação). Salas de aula em formato de "anfiteatros", com cadeiras fixas, pressupoem o ensino expositivo, sem muita chance de formação de grupos e dinâmicas mais interativas para o aprendizado. Pressupõe que o aluno senta e o professor expõe.

 

A mudança física mostrada nessa reportagem mostra que essa estrutura influi no sistema de ensino. Mais ainda, a preparação de professores para executar tal ensino nos revela que precisamos formar (reconstruir) professores com essa nova mentalidade. Nosso sistema arcaico de ensino formou a vasta maioria dos professores que hoje comandam o sistema de ensino em nossas universidades. Quebrar isso requer vontade, coragem, meios e perfil empreendedor. Aprender novos conceitos e como aplicá-los é fundamental. Devemos caminhar não apenas na ciência, mas também no ensino, em busca da qualidade e não da quantidade. Na universidade onde leciono, o número de créditos em aulas é um critério extremamente forte para determinar a contratação de docentes, um conceito que reforça a busca por horas-aula para o prêmio de poder abrir concursos, muitas vezes para os próprios alunos que a instituição tem formado. É preciso mexer na mentalidade. Na quase totalidade das instituições de ensino superior particulares de nosso país, o professor atua como horista (salário depende do número de horas-aula ministradas). Seriam computadas a esses professores horas "livres" que os alunos estivessem fazendo trabalho para a disciplina? Se não, então enxugar aulas expositivas resultaria em reduzir salários. Equívocos dessa natureza travam o sistema, o que revela que a solução não é apenas na sala de aula, mas necessita de um complexo mais amplo de ações. Se nas públicas essas inovações já encontram resistência, nas particulares essa resistência será muito mais forte.

 

Ter coragem de "zerar" um sistema e reiniciá-lo sob nova óptica é um atributo de poucos (pois muitos estão ainda inseridos na mentalidade do ensino tradicional). Por isso precisamos de pessoas empreendedoras na gestão do ensino brasileiro, e não amigos do "rei". Fico feliz quando vejo inciativas como a relatada nessa reportagem, pois percebo que instituições oficiais começam a olhar e a agir de forma mais ousada. A velocidade com que propostas inovadoreas serão implantadas em outros setores universitários determinará o sucesso de nossa educação (e nossa população) no futuro. Por isso precisamos que a pós-graduação pare de formar técnicos especializados e comece a formar o Cientista Educador Socialmente Engajado.

25/03/2015
A SOLUÇÃO PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Até que enfim alguém lúcido falando sobre o óbvio necessário sobre a educação brasileira. Vejam esta reportagem do educador português José Pacheco. É falar o óbvio, mas era o que necessitava. E, vindo de algúem de fora, acho que tem mais repercussão no país dos vira-latas. É óbvio que mais dinheiro, mais tempo em sala de aula e equipamentos sofisticados não resolverão coisa nenhuma na educação se os princípios e diretrizes estiverem errados. Mas agora alguém importante fala sobre isso. Falta ousadia brasileira não apenas na ciência, mas também na direção educacional do país. Hoje fala sobre educação qualquer um que sequer conhece a história da educação brasileira ou a evolução das teorias educacionais. Ou aquele que conhece tudo isso mas é incapaz de sair da retórica e transformar o discurso em prática. A saída para a educação, ciência, tecnologia e inovação brasileira começa com essa reflexão de Pacheco. O resto acho que é muito blá, blá, blá.   

[informado por Twitter @educamelhor]

29/09/2014
Educação: de Harvard para Nossas Entranhas

Alguns ainda se perguntam “por que estudar no exterior?”. Já faz tempo que nossas agências têm mantido a maioria dos nossos pós-docs no próprio Brasil. Se você acha que fazer graduação, pós-graduação, bolsa sanduíche e pós-doc no exterior é mera expressão xenofílica ou busca de tecnologias, está enganado. Viver num grande centro científico pode ser a experiência decisiva para melhorar nossa visão das coisas. Mais ainda, viver num país de primeiro mundo lhe dará referenciais para melhor perceber as coisas boas e as coisas ruins aqui do Brasil. Achar que as coisas aqui são maravilhosas pode corresponder apenas a falta de referencial melhor. E quem conhece o que é melhor pode, e deve, reivindicar esse “melhor” para o nosso próprio país.

Foi o que aconteceu no ano passado quando alunos do “Ciência Sem Fronteiras” começaram a questionar o número excessivo de horas que nossos graduandos passam na sala de aula. E agora não é diferente. Alunos brasileiros de Harvard fazem um movimento para melhorar a educação no Brasil. Foi preciso irem para Harvard, enquanto muitos falam isso por aqui. Mas foi bom que aconteceu e mostra mais que um manifesto. Mostra gente jovem entendendo a situação e se preocupando com ela, o que nos permite vislumbrar que a nova geração poderá fazer o que a minha não conseguiu. Ter referenciais diferentes é fundamental para qualquer análise, particularmente num sistema complexo como a sociedade. Mostrar as diferenças entre nosso ensino e o de universidades de alto nível não é apenas atestar nossa incompetência. É um passo para refletirmos porque assumimos essas diferenças; quais os motivos teóricos que nos levam a cada uma delas. É essa compreensão elemento crucial para uma mudança radical no sistema de ensino público brasileiro.

O momento também é propício, dada as eleições, mas isto não pode morrer com as eleições. Tem que ser um movimento forte e permanente. A situação educacional brasileira foi destruída por políticos e grupos econômicos. O resgate da educação de bom nível que já tivemos exige apenas vontade política e um pouco de inteligência. Nem muito dinheiro é necessário. Aliás, que usem esse dinheiro para resolver problemas de saúde mais emergencial. A educação precisa ressuscitar boas propostas, bons pensadores (por ex. Cristovam Buarque) e um desejo de construir uma sociedade melhor além do nosso mundinho familiar.

13/08/2014
Brasileiro Conquista Medalha Fields - Matemática

Esta reportagem nos deu hoje uma grande alegria. O brasileiro Artur Ávilla ganhou a medalha Fields na Matemática, prêmio dado pela União Internacional de Matemática (IMU). O feito foi tido como o tão sonhado Nobel brasileiro, pois consideram esse prêmio como o Nobel na Matemática. Sem dúvida, um grande feito e temos que agradecer a Artur Ávilla por isso, por sua brilhante trajetória e conquista.

E logo a matemática, área de ensino em que o Brasil tem péssimo desempenho por índices internacionais. E talvez seja esse ensino de matemática que tenha encaminhado muitas pessoas para as Ciências Biológicas e Humanidades. O trauma no ensino pré-universitário foi tamanho que a alternativa era buscar outro ramo... mas muitos percebem posteriormente que a matemática está nas entranhas das atividades humanas. Viver sem matemática é viver sem lógica. E é exatamente a lógica que mais nosso ensino carece, com conseqüências muito mais sérias, pois trata da forma como raciocinamos.

Há outro ponto desta aclamação sobre a vitória de Artur Ávilla. Quase ninguém o conhecia (eu mesmo nem sabia que existia); agora se torna o Brasileiro Artur Ávilla. Feliz dele que conseguiu isso por mérito. Mas isso mostra que no Brasil as pessoas só são lembradas pelos grandes feitos e, principalmente, a partir do reconhecimento internacional. Entendo e pode até ser comum esse comportamento em outros países. Mas a estrutura de base fica sempre desconsiderada. Quando numa das reportagens tentaram resgatar a importância do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) para essa conquista, à primeira vista achei estranho. Olhando o currículo do contemplado, vi que ele fez seus principais estudos no Brasil e é contratado como pesquisador na França (Centre National de la Recherche Scientifique), sendo professor visitante do IMPA. Ou seja, está mesmo lotado na França, aparentemente. Isso mostra também a força do Brasil em perder grandes cérebros. Mas o vínculo com o IMPA mostra que Ávilla ainda resgata seu chão brasileiro, o que muitos não fazem.

A questão principal nessa história é o quanto esse prêmio é do Brasil ou é “apesar do Brasil”. Das notícias que li, ficou claro que nossas instituições de ensino não formam esse profissional. O desempenho pessoal de Ávilla foi fundamental e decisivo. Lógico que o IMPA, com sua qualidade, deu ambiente propício na pós-graduação, da mesma forma que a UFRJ deve ter colaborado com esse ambiente na graduação. As olimpíadas de matemática, segundo li, também impulsionaram o interesse de Ávilla. Mas, como disse Cristovam Buarque, muitos ainda ficam de fora.

É necessário e fundamental uma instituição de ensino dar ambiente contagiante, mas o Brasil precisa mais do que isso. A instituição tem que reconhecer o talento de cada um, dando-lhe orientação e espaço suficiente para crescer. Mas isso não acontece e hoje não basta você entrar numa boa escola no Brasil, tem que fazer a sua diferença. A formação final não é automática, nem aproximadamente; requerer suor, dedicação e visão adequada. Foi esse o caso de Ávilla. Portanto, você que é aluno, não basta acreditar no nome da instituição; use o substrato e faça a diferença. Ninguém fará por você. E você, professor, tem que mexer nesse quadro, tem que fazer os alunos saírem da inércia e construírem com competência seus próprios futuros, pois estarão construindo com competência o futuro da humanidade.

13/08/2014
Dominação pelo Controle Educacional

Neste artigo do El País - Brasil, datado de 2/7/14, está o resultado de uma pesquisa sobre a capacidade do brasileiro (entre 15 e 40 anos) de assimilar conceitos, entender subjetivamente as informações e levá-las à prática. Foram investigados brasileiros com, no mínimo, os 4 primeiros anos do ensino fundamental concluídos. Desses do ensino fundamental, 64% estão em estado de letramento científico ausente ou elementar. Entre os que chegaram ao ensino superior, apenas 11% têm bom desempenho.

Isso só revela o óbvio, mas é importante mostrá-lo. Nosso ensino é equivocado. Da mesma forma como priorizamos textos prolixos e longos, alunos "papagaios" que repetem o que ouvem, crianças filhas de pais medíocres vestindo, gesticulando, cantando e recitando interesses midiáticos, também priorizamos um ensino medíocre baseado em informações. Temos que exercitar o raciocínio, a percepção do todo a partir da parte, a visualização das interações entre as partes, as possibilidades de generalizações. E notem que são essas capacidades que fazem também um bom cientista. Ou seja, temos um ensino que não atende aos critérios mínimos de formação de um cientista.

Cresci ouvindo que nosso ensino era melhor que dos Estados Unidos, porque eles sequer sabiam qual era a capital do Brasil... eram ignorantes em termos de conhecimento mundial. Mais tarde percebi que essa crítica era equivocada. Criticávamos porque eles não conheciam detalhes tão bem como nós... mas certamente eles aprendem a pensar melhor que nós, ao menos nos requisitos lógicos fundamentais e numa avaliação populacional ampla. E isso ocorre também em outros países desenvolvidos. Basta ir às ruas desses países e conversar com as pessoas que verá o nível de conexão lógica que conseguem fazer.

Lógico que falhas nesses quesitos não leva a formar cientistas, e nem pessoas das quais possamos esperar inovações em suas áreas. Portanto, esse quadro nos mostra duas coisas importantes: 1) o quanto estamos longe de uma independência intelectual e 2) o quanto isso privilegia uma minoria favorecida, pois dominam com facilidade os principais recursos de nosso país. Tudo isso mostra que a "opção" por baixa qualidade de estudo não deve ser casual, mas mais um dos mecanismos perniciosos para manter as desigualdades e favorecer grupos econômicos. A tal ideia de que “consegui ser rico às próprias custas” não é mais do que um discurso vazio e hipócrita.

Por isso tudo, se quisermos mudar o quadro da população brasileira, temos que deixar de populismos e verborreias e atacarmos com seriedade a baixa qualidade de ensino que assola nosso país de norte a sul, leste a oeste, do fundamental à pós-graduação. Ou investimos nisso, ou de nada adiantará medidas paliativas de distribuição de renda e inclusão social... a desigualdade sempre prevalecerá. E lhes digo uma coisa, mudar a realidade desse ensino (do primeiro ano fundamental à formatura na graduação) não requer mais do que 16 anos! Só falta visão, capacidade operadora e vontade política.

[Notícia informada por tweeter @medfbm ]

 

03/07/2014
Dentro ou Fora da Sala de Aula?

Esta reportagem da revista Science comenta um artigo publicado na revista PNAS, no qual os autores mostram que o ensino ativo do aluno (onde ele participa com projetos e trabahos que exigem posturas próativas na construção do seu conhecimento) traz uma certa melhora no aprendizado comparado ao ensino passivo (sentado assistindo aulas expositivas). Esse artigo nos mostra algumas coisas:

1 - Pesquisa na área de Humanas pode atingir revistas de alto nível, como a PNAS (Fator de impacto = 9,737 em 2012), inclusive atraindo atenção de revistas como Science.

2 - Precisamos mais de boa ciência do que de revistas... as revistas existem para quaisquer áreas; a pesquisa boa, nem tanto!

3 - A diferença de ensino expositivo em sala de aula (~40 h/sem nas universidades brasileiras x ~ 8 a 14 h/sem nas melhores universidades do mundo) pode explicar parte de nosso atraso científico e social.

4 - A discussão dessa problemática no Brasil é recentíssima e as mudanças curriculares ainda não estão atingindo esses patamares... ficam ligadas a verborréias que mais atendem a requisitos de vaidade.

5 - As pessoas podem melhor aprender se participarem ativamente na busca pelo conhecimento, com interesse em aprender e meios para tal (isso é muuuito antigo na educação).

6 - Algumas universidades atrelam novas contratações de professores ao número de horas-aula do setor (departamento), ainda mais num ambiente em que hora-aula é considerada aquela em sala de aula, falando igual a louco! Isso pode fazer com que cada setor privilegie disciplinas com esse perfil e até as consiga para obter o número de horas excedente necessário para contratações de professores.

7 - Notamos o quanto estamos na contra-mão dos fatos. Solicitar que façamos ciência para responder nossas perguntas, ao invés de acreditarmos nos palavras dos poderosos, sejam cientistas ou não, é um requisito básico de quem acredita na ciência como meio de transformação. Ou seja, é óbvio, mas parece novidade para as mentes atrasadas.

22/05/2014
Parece que Agora o Brasil Acorda

O novo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação empossado (veja link) tem a missão governamental de fazer a ciência e a tecnologia brasileira pegarem no tranco. No lado da ciência, que mais me compete, certamente é isso que precisa. Se nossos administradores (Presidenta, Capes, CNPq, FAPs etc.) continuassem apenas no ufanismo de que fazemos bem, nunca corrigiríamos nossos erros. A ciência brasileira está enferma e temos que reconhecer isso, com urgência para que ainda haja tempo de recuperação.

O cenário competitivo internacional é forte e não temos tempo a perder. Enquanto alguns preferem segurar o crescimento científico do Brasil apenas para que eles próprios não percam seus status de grandes cientistas, ou mesmo PQ-1A do CNPq, ou outras distinções, o Brasil segue perdendo. Cada ano investido do lado errado é um sério prejuízo ao país. Tenho falado isso há mais de duas décadas, mas sou sempre o chato, o pessimista!

A questão é uma só: temos que fazer pesquisa ousada, de ponta, de boa qualidade... e rápido, pois estamos atrasados cerca de 2 décadas. E para fazer isso temos que investir em formação de pessoal. A pós-graduação brasileira não está conseguindo fazer isso, pois quem precisa dessa qualificação nem é nosso aluno. Ele precisa, mas antes dele quem precisa é o orientador. Por isso a pós-graduação não consegue dar a formação científica e ousada que nossos cientistas precisam.

No lado a redação científica, que é um ótimo espelho dos conceitos científicos que temos, digo que quem deve ensinar redação científica ao pós-graduando é o orientador. Não cabe a nenhuma empresa ou gente de fora. Esse apoio externo deve vir para ensinar o orientador e este ensinar seus alunos. Por isso percebo que nossa falha na ciência é uma falha de formação, pois estamos passando os equívocos da antiguidade para jovens que têm que enfrentar uma modernidade muito diferente e rápida. Esse processo tem prejudicado em muito a comunidade científica brasileira.

Na proposta do novo ministro, vejo com bons olhos que ela mira na formação de qualidade (ousada) e pressupõe necessidade de velocidade. O Brasil não tem 20 ou 30 anos para resolver isso. Tem que ser rápido. Àqueles que preferem dizer que somos coitadinhos e perseguidos pelos senhores do exterior só me resta convidá-los a entrar em campo e enfrentar a batalha.

Chega dessa política científica de buscar meios de maquiar os índices para dizer que somos bons. Vamos batalhar para termos qualidade e os índices serão consequência. Parem de burlar índices e criticar índices nos quais não se consegue bom desempenho. Vamos descer do trono e reconhecer que temos muito a aprender. O que é mais gostoso para um cientista do que aprender e descobrir coisas novas? Em minha carreira, nunca olhei o Qualis das revistas em que publico. Busco apenas colocar meus trabalhos nas melhores revistas que lhes competem... o restante é consequência. E nunca tive problemas com a avaliação Qualis.

Agora só falta o governo reconhecer que essa mudança gigantesca que nossa ciência precisa não é algo que será obtido por milagre e tampouco algo que dure para sempre. Será necessário concomitantemente investir pesado na educação pré-universitária. O brasileiro não precisa ganhar universidade de presente ou por decreto. Ele precisa receber educação competente e conquistar a universidade com sua competência. Sem essa educação de base forte, nada será duradouro.

E, se tudo isso der certo, teremos condições de implantar tecnologia ousada. Nada mais simples que a tradicional equação: educação de base --> ciência --> tecnologia. Mas eu acrescento a essa equação a formação moral e ética das pessoas. Perdida na família, talvez deva ser recuperada na Escola. Sem essa formação moral e ética, de que valem os avanços tecnológicos?

Parabéns senhor ministro, mas estaremos de olho para acompanhar essa evolução, ajudar no que for preciso, criticar no que for necessário.

 

18/03/2014
UNICAMP - Inclusão não deve rejeitar qualidade

Em palestra proferida no Symposium on Excellence in Higher Education, o Dr. Marcelo Knobel, da Física da Unicamp, falou sobre a inclusão dos alunos na Unicamp, oferecendo um modelo interessante. Nesta reportagem da Fapesp, ele conta do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) criado pela UNICAMP. Um modelo já presente em outros países, mas bem adaptado aqui. Basicamente, oferece-se a egressos do ensino médio de escolas públicas um curso multidisciplinar, a partir do qual, por mérito, os alunos podem conquistar lugares em cursos de graduação na UNICAMP. Modelo similar foi rejeitado recentemente pela instituição onde eu trabalho, a UNESP: venceu a entrada por decreto.

A inclusão é necessária, mas tem que patir da base. Temos que melhorar o ensino fundamental e médio; do contrário, é demagogia. Mas antes que isso ocorra, pois será demorado, o ProFIS caça talentos. Um entrave sério para a inclusão me parece ser o vestibular viciado no ensino dos ricos. Lembremos que o melhor aluno não é necessariamente aquele bom aluno da escola particular. O melhor aluno é aquele criativo, crítico e com uma grande vontade de estudar e crescer. Talvez lhe falte instruções específicas, mas essas são mais fáceis de serem obtidas no percurso. Quantas vezes nos deparamos na Universidade com alunos "saudáveis", vindos de famílias de condições econômicas ótimas, mas que lhes faltam a criatividade e a crítica e, mais importante, lhes faltam a vontade de estudar. Estão alí porque estão ali... cabe ao mundo resolver o problema deles.

Numa das reportagens que comentei aqui, falei na iniciativa do MIT que buscou um aluno na Korea porque ele teve desempenho excelente em curso EAD dessa instituição. E garanto que não teve que fazer vestibular. Acho que nossas universidades devem dar espaço para talentos, venham de onde vierem. Mas para isso o vestibular deverá passar por uma reforma profunda: menos instrução, mais habilidade. E não só o vestibular, mas todo o ensino universitário. Pobreza também ensina habilidades essenciais aos profissionais de excelência. Quem é ou foi pobre sabe disso. A vida dura priveligia a criatividade e a força de vontade, exatamente o que sinto que falta nas salas de aula de muitas universidades brasileiras.

Enquanto memória superar criatividade e crítica, o sonho brasileiro de prêmio Nobel ou de independência científica e teconlógica ficará à mercê daqueles que estudaram nos países "nobres". Dinheiro nós temos, o que está faltando é direção adequada. Boas propostas existem, o que falta é coragem, arrojo, visão e ousadia para que os "donos dos rumos" permitam que sejam implementadas. 

16/02/2014
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