Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

Construindo uma sociedade melhor

Assuma a educação e a ciência como base para nossa sociedade

Comentários

Avaliação da qualidade de manuscritos submetidos para publicação: o diferencial entre revistas

Uma revista científica de boa qualidade, para manter seu nível, deve também zelar pelo nível de ciência que ajudam a desenvolver. Ao receber um manuscrito submetido para publicação, os editores da revista devem avaliar, em primeira instância, se a qualidade da(s) principal(is) conclusão(ões) interessa para a revista. Não se trata de saber se está na área ou na especialidade da revista, mas se, estando nesse escopo, tem a abrangência e o grau de novidade que a revista valoriza. Caso não haja essa qualidade, o manuscrito deve ser devolvido sem envio aos revisores. Caso sinta que há a novidade esperada, então o manuscrito deve seguir para a análise pelos pares, para se saber se, de fato, o que está alí está correto. De acordo com o nível das conclusões dos trabalhos que interessam para a revista, vejo que elas podem ser dividida nas seguintes classes, das quais as três primeiras interessam para a ciência: 

1. novidade, abrangência ampla e surpreendente;

2. alta novidade e abrangência ampla;

3. alta novidade, menor abrangência (especializada);

4. novidade e local;

5. sem novidade e/ou local;

Um equívoco não muito infrequente é quando o editor faz o primeiro julgamento apenas em termos do assunto. Se o assunto é adequado para a revista, então seguirá para revisão, podendo ser publicado se estiver correto. Isso elimina do processo a abrangência e o grau de novidade das conclusões, que são exatamente os fatores importantes para que o artigo atinja aceitação por maior número de cientistas. Afinal, o que qualquer cientista deve buscar quando lê um artigo científico é que possa sair da leitura com alguma boa novidade que fortaleça sua rota ou mude-a para um caminho antes inusitado. Quando a prática da ciência e das publicações não estão de acordo com os preceitos filosóficos sobre o "fazer ciência", gastamos tempo e dinheiro desnecessariamente. Do seu lado, os autores, na fase de elaboração de projetos, devem estar conhecendo o que sua comunidade científica está discutindo e ver como pode contribuir com essa comunidade. Ciência não é uma atividade isolada.

 

O que podemos aprender com a crise financeira da ciência brasileira

Link: http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=8440

O artigo em anexo mostra de forma bem contundente que a ciência brasileira tem pontos nobres de desempenho. Concordo, mas não sei se representam a ciência nacional. De qualquer forma, o texto ainda passa a ideia da importância da ciência para uma sociedade. Infelizmente, nosso governo que financia ciência não acredita no valor social da ciência, inclusive da educação.

Um fato inegável é que neste século tivemos uma grande expansão das universidades públicas brasileiras. Tenho vivido essa expansão à medida que ministro muitos cursos semanais nelas, desde as prestigiadas e antigas, até as mais recentes. É um quadro interessante, pois percebo o quanto essa interiorização das universidades tem trazido mais oportunidade para jovens interioranos, além da expansao natural nas grandes cidades. Isso tudo é benéfico e teremos um avanço numérico na produção de acadêmicos. Acrescente a isso os números mostrados no artigo em anexo, os quais mostram, de forma contundente, o aumento de produção de artigos, cursos de pós-graduação e doutores. Mostra também algumas conquistas tecnológicas que não seriam possíveis sem avanços na ciência.

Tudo isso faz sentido, pois ciência é isso. Mas minha dúvida é se tudo isso está sendo feito dentro de parâmetros de eficiência. Avanço no número de cursos, doutores, instituições, artigos publicados representam, na prática, produção bruta. Em analogia a uma empresa, seria o número de "mercadorias" produzidas. Mas não se avalia um sistema com esse foco. É necessário que se investigue prós e contras, gastos e ganhos, sem o que o sistsema pode não estar sendo tão eficiente quanto o necessário. Vamos aos exemplos. Produzir muitos doutores precisa ser equacionado pela qualidade desses doutores. Porém, tenho algumas dúvidas, pois o nivel de aprovação desses doutores é assutadoramente alto, obtido num processo que prioriza a avaliação feita pelos próprios interessados na aprovação. O mesmo podemos dizer do número de programas de pós-graduação. Sei que no passado a PG era a única unidade universitária submetida a avaliação (a avaliação na graduação começou bem mais tarde). Mesmo assim, os critérios de avaliação da PG não estão isentos de críticas mais profundas (sistema Qualis, aprovação de teses e punição por eliminação de alunos acima de certa taxa etc.). A produção científica em termos de número de artigos pode significar não muito mais do que gasto desnecessário. Lembro que em 2011 nossa ciência foi aclamada pelo ministério de Ciência e Tecnologia por esse prisma de produção bruta, pois estávamos em 15o lugar em número de artigos publicados e em 20o em número de citações recebidas. Mas nada falaram do fato de termos apenas 50% da eficiência do 20o país em termos de número de citações dividido pelo número de artigos publicados; i.e., pela análise do impacto das produções na sociedade científica em função do total produzido. Esta última análise, geralmente negligenciada em nosso país, significa que não estamos nos importando com o gasto, mas apenas com o que produzimos. Compreendo, pois afinal o dinheiro vem do governo na maioria dos casos; mas não concordo.

Essa postura de análise é a mesma que premia um pesquisador que publica muitos artigos, mesmo que de qualidade mediana, em detrimento de outro que publique bem menos com alto impacto sobre a produção de conhecimento científico. Essa prática de privilegiar quantidade (páginas, tempo de coleta de dados, número de dados, de artigos, de horas-aula etc.) é um dos principais equívocos que tem trazido injustiças sociais, lentidão no avanço científico de alta qualidade (pois desvia dinheiro e mérito de setores de melhor qualidade) e desperdício financeiro em nossa área acadêmica, particularmente na ciência. Embora o discurso seja contra tais desperdícios, a prática mais comum é a manutenção da análise quantitativa bruta em detrimento da avaliação de eficiência (produto/gasto). Para se ter uma ideia, em 2013 gastamos cerca de 45 milhões de dólares para construirmos um artigo publicado em revista de prestígio entre os cientistas. Este fato nos colocou como o 50o país dentre 53 países avaliados, indicando que nossa base de produção científica é financeiramente ineficiente.

Os casos relatados acima indicam que temos mais olhado as exceções do que a regra geral. Há sim excelências científicas no Brasil, mas não podemos imaginar que isso representa nosso país. A disparidade entre o grande número de iniciativas é muito alta, o que acarreta nossa baixa eficiência. Notem quais são as universidades que estão sempre à frente dos principais resultados. Embora varie por área, são menos de uma dezena num universo na casa das centenas de universidades públicas.

Há duas boas razões para agirmos dessa forma. Uma é a pressuposição de que temos ciência forte como regra, de forma que aumento de quantidade significa aumento de qualidade. Outra é a política probabilística cruel de que aumentando o número total, aumentamos também o número de produções adequadas. Esta última possibilidade avança lentamente, com desperdício e mata ilusões de uma grande maioria que é eliminada do sistema.

Por essas considerações, julgo que podemos aprender com esta crise financeira se soubermos melhor valorizar a qualidade científica de nosso país, de forma honesta e menos enviesada para o lado dos apadrinhamentos ou referenciais científicos equivocados. Precismos de ousadia e coragem para fazermos uma reflexão profunda sobre nossa história, nossos equívocos e as opções de competência mais urgentes. Há projetos científicos aprovados que sequer deveriam ter sido propostos, significando desperdício de dinheiro. Temos que acabar com a política de produzir veículos para divulgar aquilo que a ciência competente internacional rejeita. Temos que aprender o papel da ciência no país, compreendendo o equívoco teórico subjacente a conceitos de ciência nacional, local e coisas do gênero. Falta-nos uma visão mais aprofundada sobre o que significa ciência, como ela age em nossa sociedade, sem cairmos na falácia da aplicabilidade imediata, ou financeira, como indicadora de qualidade científica. A história da ciência já provou como ela funciona, de forma que é um desajuste insistirmos em caminhos que já deveriam ser desconsiderados. Ao invés de protegermos nossa ciência, deveríamos desafiá-la para que responda com toda a sua competência, mesmo que numericamente baixa. Certamente nossa sociedade ganharia muito mais.

 

Para entender melhor meus pressupostos, poderá ler meu livro "Ciência além da visibilidade", 2017.     

  

 

 

CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA REDAÇÃO CIENTÍFICA

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Estes 20 conceitos, se adequadamente definidos, lhe dão a sustentação necessária para esclarecer suas dúvidas durante a redação científica. Estude-os e, posteriormente, treine sua aplicação, até que consiga pleno domínio desta prática. Não é fácil essa prática, mas é necessária para qualquer cientista.

AVALIAÇÃO DOCENTE - considerações sobre a lógica e a razoabilidade

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Texto fundamentando prancha que publiquei em 09/09/16 na internet (Facebook, Twitter e Instagram).

O QUALIS e a classificação das revistas

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Por que Publicar?

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Como Acertar no Alvo!

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Classificação das Revistas Científicas

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