Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

Construindo uma sociedade melhor

Assuma a educação e a ciência como base para nossa sociedade

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O que podemos aprender com a crise financeira da ciência brasileira

Link: http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=8440

O artigo em anexo mostra de forma bem contundente que a ciência brasileira tem pontos nobres de desempenho. Concordo, mas não sei se representam a ciência nacional. De qualquer forma, o texto ainda passa a ideia da importância da ciência para uma sociedade. Infelizmente, nosso governo que financia ciência não acredita no valor social da ciência, inclusive da educação.

Um fato inegável é que neste século tivemos uma grande expansão das universidades públicas brasileiras. Tenho vivido essa expansão à medida que ministro muitos cursos semanais nelas, desde as prestigiadas e antigas, até as mais recentes. É um quadro interessante, pois percebo o quanto essa interiorização das universidades tem trazido mais oportunidade para jovens interioranos, além da expansao natural nas grandes cidades. Isso tudo é benéfico e teremos um avanço numérico na produção de acadêmicos. Acrescente a isso os números mostrados no artigo em anexo, os quais mostram, de forma contundente, o aumento de produção de artigos, cursos de pós-graduação e doutores. Mostra também algumas conquistas tecnológicas que não seriam possíveis sem avanços na ciência.

Tudo isso faz sentido, pois ciência é isso. Mas minha dúvida é se tudo isso está sendo feito dentro de parâmetros de eficiência. Avanço no número de cursos, doutores, instituições, artigos publicados representam, na prática, produção bruta. Em analogia a uma empresa, seria o número de "mercadorias" produzidas. Mas não se avalia um sistema com esse foco. É necessário que se investigue prós e contras, gastos e ganhos, sem o que o sistsema pode não estar sendo tão eficiente quanto o necessário. Vamos aos exemplos. Produzir muitos doutores precisa ser equacionado pela qualidade desses doutores. Porém, tenho algumas dúvidas, pois o nivel de aprovação desses doutores é assutadoramente alto, obtido num processo que prioriza a avaliação feita pelos próprios interessados na aprovação. O mesmo podemos dizer do número de programas de pós-graduação. Sei que no passado a PG era a única unidade universitária submetida a avaliação (a avaliação na graduação começou bem mais tarde). Mesmo assim, os critérios de avaliação da PG não estão isentos de críticas mais profundas (sistema Qualis, aprovação de teses e punição por eliminação de alunos acima de certa taxa etc.). A produção científica em termos de número de artigos pode significar não muito mais do que gasto desnecessário. Lembro que em 2011 nossa ciência foi aclamada pelo ministério de Ciência e Tecnologia por esse prisma de produção bruta, pois estávamos em 15o lugar em número de artigos publicados e em 20o em número de citações recebidas. Mas nada falaram do fato de termos apenas 50% da eficiência do 20o país em termos de número de citações dividido pelo número de artigos publicados; i.e., pela análise do impacto das produções na sociedade científica em função do total produzido. Esta última análise, geralmente negligenciada em nosso país, significa que não estamos nos importando com o gasto, mas apenas com o que produzimos. Compreendo, pois afinal o dinheiro vem do governo na maioria dos casos; mas não concordo.

Essa postura de análise é a mesma que premia um pesquisador que publica muitos artigos, mesmo que de qualidade mediana, em detrimento de outro que publique bem menos com alto impacto sobre a produção de conhecimento científico. Essa prática de privilegiar quantidade (páginas, tempo de coleta de dados, número de dados, de artigos, de horas-aula etc.) é um dos principais equívocos que tem trazido injustiças sociais, lentidão no avanço científico de alta qualidade (pois desvia dinheiro e mérito de setores de melhor qualidade) e desperdício financeiro em nossa área acadêmica, particularmente na ciência. Embora o discurso seja contra tais desperdícios, a prática mais comum é a manutenção da análise quantitativa bruta em detrimento da avaliação de eficiência (produto/gasto). Para se ter uma ideia, em 2013 gastamos cerca de 45 milhões de dólares para construirmos um artigo publicado em revista de prestígio entre os cientistas. Este fato nos colocou como o 50o país dentre 53 países avaliados, indicando que nossa base de produção científica é financeiramente ineficiente.

Os casos relatados acima indicam que temos mais olhado as exceções do que a regra geral. Há sim excelências científicas no Brasil, mas não podemos imaginar que isso representa nosso país. A disparidade entre o grande número de iniciativas é muito alta, o que acarreta nossa baixa eficiência. Notem quais são as universidades que estão sempre à frente dos principais resultados. Embora varie por área, são menos de uma dezena num universo na casa das centenas de universidades públicas.

Há duas boas razões para agirmos dessa forma. Uma é a pressuposição de que temos ciência forte como regra, de forma que aumento de quantidade significa aumento de qualidade. Outra é a política probabilística cruel de que aumentando o número total, aumentamos também o número de produções adequadas. Esta última possibilidade avança lentamente, com desperdício e mata ilusões de uma grande maioria que é eliminada do sistema.

Por essas considerações, julgo que podemos aprender com esta crise financeira se soubermos melhor valorizar a qualidade científica de nosso país, de forma honesta e menos enviesada para o lado dos apadrinhamentos ou referenciais científicos equivocados. Precismos de ousadia e coragem para fazermos uma reflexão profunda sobre nossa história, nossos equívocos e as opções de competência mais urgentes. Há projetos científicos aprovados que sequer deveriam ter sido propostos, significando desperdício de dinheiro. Temos que acabar com a política de produzir veículos para divulgar aquilo que a ciência competente internacional rejeita. Temos que aprender o papel da ciência no país, compreendendo o equívoco teórico subjacente a conceitos de ciência nacional, local e coisas do gênero. Falta-nos uma visão mais aprofundada sobre o que significa ciência, como ela age em nossa sociedade, sem cairmos na falácia da aplicabilidade imediata, ou financeira, como indicadora de qualidade científica. A história da ciência já provou como ela funciona, de forma que é um desajuste insistirmos em caminhos que já deveriam ser desconsiderados. Ao invés de protegermos nossa ciência, deveríamos desafiá-la para que responda com toda a sua competência, mesmo que numericamente baixa. Certamente nossa sociedade ganharia muito mais.

 

Para entender melhor meus pressupostos, poderá ler meu livro "Ciência além da visibilidade", 2017.     

  

 

 

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