Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

Construindo uma sociedade melhor

Assuma a educação e a ciência como base para nossa sociedade

Brasil não valoriza ciência

Categoria(s): Ciência

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Comentário do Prof. Gilson Volpato 01/06/2015:

Esta reportagem nos fala de um caso recente e triste, em que uma mísera doação (doação + frete = ~364 dólares) feita pelos Estados Unidos para cientistas brasileiros não pôde ser recebida por problemas com a receita federal. Sempre aprendi que quando o cérebro não funciona, temos que ser rígidos e usar leis. Bom senso é algo que vemos até nos outros animais, mas que está começando a ficar escasso no Brasil.

A questão levantada pela reportagem é mesmo séria. O Brasil não acredita na ciência que ele mesmo financia. Por causa disso, as decisões técnicas são frequentemente tomadas com bases políticas e não técnicas. Não que a política não esteja presente em todas as ações humanas. Mas o limite decorre da inteligência. Um país investir em ciência significa mais que uma exigência de boa conduta internacional. É uma ação de inteligência. A ciência nos dá o conhecimento mais razoável que o ser humano conseguiu produzir ao longo de toda a sua formação. O sistema, chamado método científico (operacional e epistemológico), tem se aprimorado gradativamente, num processo que não tem fim. O conhecimento produzido nesse sistema viabilizou muita coisa, mesma a própria revolução industrial. Esse conhecimento é a melhor ferramenta que o ser humano pode ter produzido e que deveria livrar a sociedade de seus maiores pesadelos. Mas, não basta haver o conhecimento. Precisamos aceitar que ele tem essa força e usá-lo a nosso favor. Quando hospitais são baseados no conhecimento científico, a coisa funciona muito bem. Quando esses hospitais são pautados principalmente por questões políticas, aí o sofrimento da população é inevitável. Essa é a força da ciência. Nos dá conhecimento, abre nossas "cabeças" e pode tornar a sociedade melhor. Lembramos que dentro disso, ou paralelo a isso, a filosofia é o complemento essencial, que discute, entre outras coisas, a ética, que é o trilho necessário para as ações científicas. Quando essas vertentes se coadunam, o homem consegue usar a ciência para o crescimento da humanidade. Quando a política passa por cima dessas coisas, então temos problemas e, geralmente, a ética usada na política sobrepõe outras éticas disponíveis. Quando a sociedade não se ajusta direito, então as leis sobressaem, chegando a serem usadas em contextos inimagináveis, tal a falta de sabedoria.

Para exemplificar o quadro, veja que nossa presidenta deu cerca de 35 milhões de reais para uma pesquisa sem que outros grupos da mesma área tivessem a chance de concorrer. Mesmo que tal ação tenha alguma legalidade, indica o quanto o poder político interfere na nossa ciência. E isso não é só na presidência; é o pano de fundo comum nos julgamentos de projetos em editais públicos. A corriola dos grupos amigos ainda governa, em muito, a distribuição de verba para pesquisa e isso não é orquestrado pelos grandes interesses políticos da nação; está bem mais abaixo. Parte da unidade básica da sociedade; o ser humano que faz ciência!

Em novembro do ano passado, a revista Nature publicou trabalho que mostrou que o Brasil é ineficiente em pesquisa científica. Esse trabalho foi comentado aqui (Publicação – comentários: “Baixa eficiência científica brasileira”). Essa pesquisa mostrou que gastamos cerca de 45 milhões de dólares para conseguirmos produzir um artigo que seja publicado em revista de alto prestígio internacional. Com isso, ficamos em 50º lugar, entre 53 países. Chega ao nível de irresponsabilidade social. Isso ocorre porque estamos financiando muita pesquisa equivocada. Mas os equívocos não estão apenas aí. A falta de credibilidade que nossos governos têm com a ciência reflete também nisso. A publicação em revista de alto prestígio não é um fim em si, mas um indicador do quanto a ciência é fomentada no país. Com isso, nosso gasto exorbitante (~ US$ 45 milhões) para essa tarefa mostra que não temos ambiente de ciência. Como a matéria referida no primeiro parágrafo bem mostra, o Brasil optou pelo caminho da ignorância. Ignorantes e felizes trabalham duro e sorriem num churrasquinho de gato. Ora, isso é inadmissível. A pobreza e o sofrimento do brasileiro é algo muito maior do que pode parecer. A questão não é apenas de dinheiro, mas de sabedoria para esse povo. O espaço dado à religião apenas mostra uma forma de tentar aliviar o sofrimento e muitos buscam esse alívio. Mas sua cura certamente está condicionada ao conhecimento científico e, portanto, está bem mais distante aqui no Brasil.

O dia que tivermos um país de ciência, temperado pelas elucubrações filosóficas sólidas de uma filosofia internacional, estaremos no caminho de uma vida melhor. Sem isso, continuamos num “salve-se quem puder”, onde os mais abastados sempre são “os que podem” e os menos os que “não podem”.

OBS: a reportagem comentada me foi enviada pelo colega Rodrigo E. Barreto.