Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

Construindo uma sociedade melhor

Assuma a educação e a ciência como base para nossa sociedade

Uma carta aberta ao Brasil

Categoria(s): Sociedade

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Fonte: Mark Manson - site

Comentário do Prof. Gilson Volpato 16/03/2016:

Uma proposta sobre a ação da universidade na reconstrução do Brasil

O conteúdo desta carta do escritor Mark Manson pode nos ensinar muito. Reconhecer que nossa formação cultural nos aprisiona e precisa ser melhorada é um grande avanço. Quando o brasileiro conseguir primeiro pensar no bem maior da sociedade e, depois, no bem pessoal mais próximo, teremos dado um passo definitivo em direção a uma sociedade melhor. Esse é o ponto que estrangula nossa sociedade. O que assistimos hoje no Brasil é reflexo disso. Acho que Mark Manson acertou em cheio. Não era algo que não conhecíamos, mas algo que sempre ficou para depois. Esta carta vinda de um gringo não pode ser considerada como uma maneira de introduzir o "pensamento americano em nosso país". Não se trata disso e acho que já crescemos o suficiente para separarmos essas coisas. O que é cultura não é estritamente genético. Se fosse uma característica genética do brasileiro, então não haveria mesmo solução. Mas, como é cultural, então temos chance de mudar. Basta ser cultural para podermos alterar. Aprender com outras culturas é sinal de inteligência, sem preconceitos.

Podem ter certeza que atentarmos para os dizeres dessa carta mudaria nossa sociedade inteira. Envolve estratégias, pois não dá para esperar que cada um se converta e vire santo a partir de amanhã. Estratégias essas que passam principalmente pela educação, seja a formal, sejam aquela das mídias sociais e da própria casa. Mas para que haja estratégias, deve haver a percepção clara de que esse é o ponto a ser atacado.

Sempre imaginei a Universidade como um local ávido para o repensar sobre o mundo, o que inclui nossa sociedade. Mas nossa universidade tem feito exatamente o inverso. Tem reafirmado e enfatizado nossos erros culturais, como aqueles explicitados por Mark Manson. Ou seja, um local que deveria florescer o repensar da sociedade é apenas o local da manutenção de nossos vícios sociais, propagando-os. Isso dissemina tais vícios culturais aos adolescentes que recebemos, perpetuando os dramas sociais, mas com a roupagem de que lutamos pela transformação da sociedade. Se hoje produzimos profissionais de baixo valor moral e ético, não é apenas culpa do caminho anterior à universidade; somos parceiros nessa culpa. Cabe a nós fazermos algo, mas algo incisivo, radical, pois medidas mais contemplativas não terão a força suficiente para alcançar a velocidade de transformação que nossa sociedade necessita.

Darei um exemplo abaixo sobre como poderíamos agir no nível universitário (não excludente a outros setores). Foco na universidade apenas por ser o local onde tenho mais intimidade. Quando um aluno entra na universidade, em idade ainda tenra e muito propício a modificações, temos uma grande oportunidade para permitir uma moldagem social nesses futuros profissionais. Hoje uma parcela significativa da população chega à universidade. E, mais ainda, essa parcela atuará de forma mais abrangente na sociedade, amplificando seu poder de atuação. Portanto, uma alternativa é trabalharmos as questões sociais necessárias nessa fase. Minha proposta é a de um acordo entre todas as universidades no país no sentido de garantirmos homogeneidade de conduta em alguns pontos cruciais. Citarei três pontos como exemplo.

Entendo que há aqueles que são contra toda e qualquer “homogeneização”, mas algumas são necessárias. Falo de homogeneizar o óbvio para uma vida social sustentável e dentro de parâmetros sociais compatíveis com nossa cultura (veja que é uma transformação contextualizada). Vejo que alguns preferem se esconder atrás do "NO STRESS" (uma forma de fugir de obrigações sociais), mas desconfio que conseguem o "no stress" porque o estresse fica para o "outro". Assim é fácil. Numa vida social, entendo que nossa liberdade termina quando começa a do próximo. Esse respeito impõe limites, pois sem eles o convívio em grupo seria impossível. Veja que até nas mídias da internet há regras explícitas ou implícitas e os que não seguem acabam recebendo algum tipo de punição, do xingamento à desconexão. Vamos então a três exemplos.

Um primeiro ponto crucial é o de compromisso com os compromissos. O que é acordado não é caro e deve ser seguido. Seria um NÃO ao jeitinho brasileiro, ao improviso, ao “cortar caminho”, enfim, à solução remediada visto que a solução correta não foi feita. Nesse quadro um exemplo específico é o compromisso com tarefas universitárias, incluindo o horário. Esse respeito está muito além de simples paixões por ordem; o horário é um regulador social fundamental.

Outro ponto seria a erradicação do "dedo duro". Não acho que em casos extremos não possa ocorrer, mas não é uma postura a ser cultuada. Note que no problema sobre o "retrovisor do carro" colocado por Mark Manson, ele não deu a terceira alternativa (você entrega o seu colega), pois ela é inadmissível. Ele apenas disse: ou você fica quieto, ou pressiona seu amigo a se entregar. Quando diz que a maioria dos brasileiros ficaria quieta e dos americanos pressionaria o amigo, ele não está nos ofendendo. Mesmo que todos que tenham lido o texto assumam que não fariam isso, ainda acredito que na prática a situação é diferente. Não me parece descabido achar que isso ocorra por aqui. Vejam, por exemplo, como age o aluno que viu o companheiro colar e é questionado pelo professor: a maioria ocultará a “cola do colega”, mas não pressionará o colega a se entregar para o professor. Temos até um ditado para isso: “quem não cola não sai da escola”.

Um terceiro ponto de comum acordo é a ênfase na capacidade de perder vantagens pessoais para bem social. Um exemplo seria idealizarmos uma norma sabendo que seríamos prejudicados, mas que é a norma necessária para o bem do grupo naquele momento. Veja, por ex., quando algumas pessoas fazem “normas” para distribuição de bolsas, de forma que favoreçam implicitamente seus estagiários. Ok, não em venha novamente dizer que isso não ocorre por aqui! Essa percepção é a de que a sociedade requer uma interação simbiótica, sustentável, onde certamente alguns terão que ceder a favor de um grupo maior. Esse conceito talvez seja o mais difícil, mas também o mais necessário. Pense primeiro o que é preciso e depois veja onde você se encaixa. O contrário é muito prejudicial (veja primeiro onde você se encaixa e depois o que é possível ser feito).

Esses três pontos já são um bom início, mas poderiam ser acrescidos de outros (por ex., o gosto de fazer o melhor pelo prazer de ter feito o melhor). Se esses pontos fossem radicalmente seguidos pela organização universitária de nosso país, sendo a regra desde a entrada até a saída da universidade, acredito piamente que estaríamos dando ao Brasil um conjunto de profissionais mais bem preparados e com maior poder de transformação informal na nossa sociedade. Óbvio que esta medida não é extremada, pois sempre haverá espaço para o "bom senso" para que casos excepcionais não transformem as medidas em terrores cegos numa sociedade burra.

Sempre aprendi que a melhor atividade de "Extensão Universitária" que podemos fazer é a boa formação dos profissionais que saem da universidade. Não apenas uma formação técnica, mas uma formação social e contextualizada das coisas. Ao serem formados, nossos alunos passam a entrar nas entranhas de nossa sociedade, com certo poder e espaço para transformá-la. Esse profissional poderia ter a capacidade para transformar a sociedade à sua volta, num caminho similar, porém inverso, do que acontece com uma laranja podre em meio a várias laranjas sadias. É um caminho propício. A única dificuldade está nas mãos dos organizadores e componentes fixos da universidade. Não seria exatamente esse sistema que deveria refletir sobre a universidade? Por que esse caminho pareceria tão difícil ou impossível?

Gilson L. Volpato