Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

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A Ciência Brasileira Está Ruim

Categoria(s): Ciência

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Fonte: Rogério Cezar de Cerqueira Leite - Tendências/Debates, Folha de São Paulo,

Comentário do Prof. Gilson Volpato 07/01/2015:

Leiam esta reportagem da Folha de São Paulo. Ela ressalta como a ciência internacional está percebendo a pobreza da pesquisa brasileira. O Brasil, segundo entendo, buscou entrar na ciência internacional pelo jeitinho. Fez isso porque alguns achavam que nossa ciência era boa e que faltava apenas visibilidade. Esse erro veio de alguns gestores de ciência do Brasil, entre eles Scielo. Achavam que com a visibilidade que a metodologia Scielo dava às nossas publicações, como realmente dava, bastaria. Mas visibilidade sem qualidade apenas mostrava ao mundo como somos ruins em ciência. Passamos mais vergonha do que sucesso. Passei vários anos de minha carreira pedindo que os editores brasileiros publicassem suas revistas em inglês. Hoje eu digo: publiquem em português, pois estamos passando vergonha.

Eu tenho falado há décadas que nossa ciência é equivocada. E fui taxado por muitos como o cara chato, aquele que não gosta da ciência nacional. Se eu não gostasse, havia ignorado todos esses equívocos e seguido meu caminho. Exatamente por gostar é que me debrucei a tentar corrigir os equívocos. Quando publiquei o livro "Pérolas da Redação Científica" procurei dar às pessoas um "manual de proteção ao autor". Indiquei os principais erros, que são gritantes. Mas nesse tempo todo, e posso datar principalmente de meados de 90 até agora, muitos gestores nacionais de ciência sempre acreditaram que nossas revistas eram injustamente desprezadas no exterior. Vi na Fapesp reportagem que dizia que alguns de nossos gestores sugeriam que para termos mais citações deveríamos publicar em coautoria com cientistas renomados do exterior. Isso é absurdo! Lógico que aumenta a citação, mas não é o aumento que queremos e necessitamos. As citações internacionais devem ser produtos de nossa qualidade científica e não de nosso jeitinho de resolver problemas. A busca por pura visibilidade tem vida curta, como teve. Quando ela decorre de nossa qualidade, a vida é bem longa. Esse deveria ser o caminho. Mas, como no Brasil tudo é improvisado, tentaram improvisar para aumentar nossos índices de qualidade. E, quando não dava certo, criticavam os índices.

Esse ambiente anticientífico e altamente corporativista está levando a ciência brasileira ao buraco. Basta examinar artigos publicados em revistas nacionais (em ~95% delas) que constatamos erros que nos dizem claramente que os autores não sabem o que estão fazendo e, mais problemático ainda, que os revisores e editores não têm propriedade para o trabalho que exercem, mesmo que sejam idealistas e muito bem intencionados. O valor do investimento brasileiro em ciência é mais que razoável, de forma que a ciência fraca produzida nos mostra que estamos sendo irresponsáveis. Temos, urgentemente, que parar com essa disseminção de ciência de baixa qualidade e começarmos a reestruturar nosso sistema científico. Há muito dinheiro jogado fora nessa ciranda científica. O imposto dos brasilieros não está sendo valorizado. E o pior: isso parece decorrer mais de incompetência do que de safadeza. Fosse safadeza, era caso de polícia. Incompetência é caso de educação. E em educação competente o Brasil está completamente ancrônico. Mas hoje é fácil entra na universidade, fazer pós-graduação e virar doutor!

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