Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

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Ciência Brasileira Precisa de Qualidade... Depois Visibilidade

Categoria(s): Publicação Científica

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Fonte: Fapesp, Elton Alisson, 01/11/2013

Comentário do Prof. Gilson Volpato 03/11/2013:

Neste artigo vemos que dirigentes importantes de nossa ciência ainda permanecem com alguns equívocos que podem atrasar a internacionalização da ciência brasileira. Internacionalizar nossa ciência precisa muito mais do que publicar em inglês ou publicar junto com gringo famoso. Precisa, fundamentalmente, de produzir conhecimento científico internacional. Sem isso, pode estar em inglês ou mandarim que não adiantará nada. E quando vejo as revistas brasileiras percebo o quanto estamos fazendo uma ciência equivocada. Há acertos, mas a maioria está enferma.

Trabalho na área de redação científica desde 1986. Durante quase todo esse tempo, passei pregando para que as revistas brasileiras publicassem em inglês. Hoje percebo que o caminho não é esse. Lógico que para internacionalizar tem que estar em inglês. Mas devemos fazer como os produtos nacionais que são exportados... apenas aqueles que têm qualidade internacional. Do contrário, passaremos vergonha. Há artigos que chegam a ser surreais de tão equivocados que são. Se são escritos em inglês, que vergonha! Acho que roupa suja deve ser lavada em casa. Infelizmente, as seleções de revistas feitas aqui no Brasil ainda não garantem que estamos separando o joio do trigo. Está ainda tudo muito misturado, coisa boa com coisa ruim nas mesmas revistas. Se simplesmente passarmos para o inglês os artigos de algumas revistas, passaremos muita vergonha e retardaremos nossa busca por competência e reconhecimento internacional.

Quais laranjas são exportadas? Quais grãos de café são exportados? Mesmo de uma única empresa, há uma seleção e só os melhores entram na concorrência internacional. O mesmo deve ser com os artigos. Em cada revista deveria haver uma seleção rígida para saber o que pode aparecer em inglês. Lógico que o restante não deveria estar publicado, mas por pressão de número de artigos (parte incentivado pela Scielo) os editores acabam por aceitar. Lógico que temos revistas boas, mas são de um número tão irrisório, perto da estimativa de 8 mil revistas brasileiras, que dá até medo. 

Outra constatação nessa reportagem é que publicamos poucos artigos de revisão. Lógico que isso acontece. De um lado, CNPq e até Fapesp têm restrições para financiarem revistas que publicam apenas artigos de revisão, por considerarem que são artigos baseados em dados secundários. Ora, e os grandes Annual Reviews que existem e têm altos fatores de impacto; como fica isso? O problema brasileiro é ainda mais grave. Veja o que nossos cientistas consideram "artigo de revisão" quando fazem o aluno escrever a tal "revisão da literatura" na tese e depois tentam publicar isso em algum lugar. Artigo de revisão, como ressaltado do texto em destaque, recebe muitas citações e requer experiência do autor. Mas, mais do que isso, escrever um artigo de revisão não é resumir a literatura; ao contrário, é partir da literatura existente para defender conclusões novas. Se não tiver conclusão nova, não é um artigo científico. Essa conclusão pode ser até um novo cenário ou a detecção de setores do conhecimento que carecem de mais estudos, mas tem que ter alguma novidade.

Mas percebo que a temática do artigo é atrair citação por meio de estratégias como redação em inglês e apadrinhamento de autoria com personalidades nobres do exterior. Não é esse o caminho. Lógico que isso pode até aumentar um pouco as citações que receberemos do exterior, mas isso não é necessariamente internacionalizar nossa ciência. Precisamos mostrar ao mundo que temos como contribuir com as discussões científicas internacionais. Temos que ter estudos que entrem nesses temas, com qualidade, com propriedade e que sejam respeitados. Enquanto ficarmos fazendo ciência para resolver o problema do esgoto do bairro são Luís, do lixo da casa do seu Antonio etc., nunca entraremos na ciência internacional, mesmo que publiquemos em inglês. É necessário entendermos que temos que "FAZER CIÊNCIA"; mas a maioria de nossos cientistas sequer sabe o que é isso. Temos que usar dados locais, como se faz na ciência internacional, para discutir questões gerais. Toda pesquisa é feita em algum lugar. A diferença é que alguns sabem usar dados locais para discutirem questões gerais, enquanto outros ficam presos aos dados locais (muitas vezes colocando até o nome da cidade no título do trabalho - há exceções válidas, mas são exceções). Uma vez que tenhamos criado conhecimento geral, certamente ele poderá ser aplicado a situações particulares. Ou seja, ciência particular não sai do lugar... ciência é geral e atua em muitos casos particulares. Isso é fazer ciência. Veja o grande Paulo Freire, que trabalhou com o ser brasileiro, local, e tem seu estudo reconhecido internacionalmente.

A internacionalização não é uma questão puramente de idioma, mas de qualidade de pensamento. O discurso do texto em questão erra ao achar que já temos a qualidade científica internacional e que precisamos apenas de visibilidade. Lógico que temos qualidade em alguns segmentos, mas isso não é Brasil. Pouquíssimos conhecem, na prática, a ciência brasileira de Norte a Sul e Leste a Oeste. Ela ainda é muito fraca. Não adianta termos meia dúzia de núcleos nobres com boa internacionalização... isso não é Brasil. Não devemos deixar que a má distribuição de renda e de ensino de qualidade de nosso país se repita com a ciência (alguns têm alto nível e a vasta maioria brinca de ciência). Esse redirecionamento é fundamental e não está sendo colocado por nossas grandes autoridades. Estamos caminhando para novamente errar da mesma forma que erramos na distribuição de renda, de ensino, de justiça e de tantas outras coisas.

Desculpem ao desabafo, mas tenho falado isso há quase 20 anos... e nada!