Gilson Volpato

Ciência & Comunicação

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Publicação Científica na Era da Comunicação

Categoria(s): Publicação Científica

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Fonte: Agência Fapesp, Karina Toledo, 11/09/2013

Comentário do Prof. Gilson Volpato 11/09/2013:

A redação e a publicação científica têm experimentado diversas modalidades de desafios desde final da década de 90. Alguns perceberam cedo esses desafios e tomaram providências ousadas. Outros permanecem presos ao passado e não conseguem imaginar, quanto mais propor e implementar, mudanças ousadas. A Internet não apenas trouxe as revistas eletrônicas, mas uma verdadeira avalanche de possibilidades de comunicação entre os internautas. Na ciência, a Internet domina mais que a televisão, segundo penso. Desde o início do Século XXI, a concepção de publicação não aceita mais amadorismos e fixação com o passado. Nesse sentido tenho criticado duramente a vasta maioria das revistas nacionais, que sequer estão entendendo para onde vai o processo. Muitas foram criadas mais por uma determinação da CAPES, como forma de atender às regras e conseguir melhores conceitos (mais dinheiro), mas pouco se fez pensando na Missão Ciência.

As mudanças conceituais no mundo científico, em particular na publicação científica, trouxeram mudanças também no ambiente da redação científica. Hoje o artigo deve ser sólido e importante, mas igualmente agradável e visível. Esses dois últimos quesitos têm mudado a concepção e apenas as revistas de alto nível têm implementado alterações nesse sentido. As demais permanecem fazendo, digitalmente, o que se fazia há décadas. Nesta reportagem (Link) com o editor da revista Plos One fica clara a postura emancipadora, genuína e empreendedora do corpo editorial. Não é difícil fazer isso, basta ter visão e coragem. Isso é o que mais falta nas revistas brasileiras, ao menos avaliando a partir das publicações (mesmo que restritas ao Scielo).

Nossas instituições que fomentam publicações deveriam ser mais ousadas para estimularem nossos editores. Muitas vezes servem como retrógrados que penalizam as inovações por não atenderem às rígidas regras impostas pela mediocridade anacrônica. Estudar e entender a evolução da redação científica no mundo é o melhor caminho para nos anteciparmos ao que está vindo a cada ano. Como no meio empresarial, quem chega primeiro com a devida qualidade leva a maior fatia. Por que não inovamos? Por que somos tão presos ao passado? Essa discussão a CAPES deveria estar estimulando nas pós-graduações, ao invés de premiar cursos que fazem revistas, pois sabemos que geralmente se prestam apenas a publicar aquilo que não tem como ser publicado na ciência internacional. Paralelo a isso, as agências de fomento precisam se modernizar e incluir verba variável destinada ao pagamento das publicações, pois no projeto de pesquisa não se consegue prever com muita precisão em qual revista os trabalhos serão publicados (portanto, não temos como precisar os custos). Mais ainda, como visto na matéria a que se refere este texto, as Universidades devem entender, de uma vez por todas, que é tão necessário pagar a realização da pesquisa quanto sua publicação. Cabe a elas pagar toda publicação que atenda o critério de mérito científico.

Finalmente parece que estamos chegando ao que eu escrevi em 2004, em editorial (Link) da revista online Annual Review of Biomedical Sciences, da qual fui editor-chefe e criador. Os governos de cada país devem arcar com os custos da publicação (no caso, via instituições de financiamento, instituições de pesquisa e universidades). Mas, vejam como é o cenário brasileiro. Fechei essa revista, que tinha uma expressiva participação de autores do exterior, caracterizando-se como uma publicação internacional. Isso ocorreu porque o CNPq e a FAPESP não financiavam revistas exclusivamente de artigos de revisão, por considerarem que eram artigos de dados secundários. O mesmo ocorreu em minha universidade, UNESP, que considerou que a revista não era boa, baseada numa análise equivocada, mas feita por uma pessoa que a nossa pró-reitora de pesquisa admirava. Esse tem sido o caminho da ciência nacional.

Por isso aqui vai meu conselho aos jovens que sonham em ser cientistas: olhem para a frente com base nos conceitos sólidos que a filosofia e a história da ciência nos fornecem. Há um mundo melhor, acreditem!